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Jorge Amado & Zélia Gattai

O Nome do Cafezinho – Por João Jorge Amado

Diz a lenda – mas não é nada oficial – que há uma boa razão para que os alemães procurem mulheres estrangeiras às alemãs, quando pensam em se casar. As brasileiras, embora bem cotadas, não estão no topo da lista. Preferem as laosianas, vietnamitas e, principalmente as tailandesas. As latinoamericanas vem em seguida.

A explicação é fácil. O alemão, num dia frio de inverno, pede à sua mulher tailandesa para lhe fazer um cafezinho. Enquanto ela o prepara, ele acende a lareira e, finalmente, os dois tomam o café e namoram desfrutando aquele calorzinho agradável do fogo de lenha.

No mesmo dia frio de inverno, um outro alemão, este casado com uma alemã, tem a ousadia de pedir a mesma coisa. A resposta é imediata: “Por que não faz você, porra? Os direitos são iguais!” E aí a Walkyria coça o saco.

Não ponho a mão no fogo pela veracidade da lenda – afinal, trata-se de lenda – pois correria o risco de ganhar o apelido de maneta. O que posso dizer, em testemunho da verdade, é que já ouvi de conhecidas minhas, das poucas brasileiras que conheço que são (ou foram) casadas com alemães, que foram instadas por amigas alemãs a serem menos subservientes e a se imporem mais diante das atitudes “machistas” de seus maridos.

Neruda acompanhava meus pais em uma viagem à Ásia. Da China, partiram para Rangoon, na Birmânia. Ao fazerem o check-in em Pekin, meu pai vaticinou: “-Olhe bem, compadre, as nossas malas. Talvez seja a última vez que as vemos”.

Quando desembarcaram em Rangoon, nada de malas. Todos aborrecidos, Neruda indignado. A informação que tinham é que assim que a bagagem fosse localizada, seria entregue, imediatamente no hotel. Meu pai, apesar de muito aborreceido, era pragmático. Se, além de perder as malas, ainda perdessem o restante da viagem, o prejuízo seria duplo.

Neruda, por seu lado, não se conformava. Já havia servido em Rangoon como cônsul nos idos de 1927, mas, desta vez, tudo lhe parecia péssimo. As várias coisas que havia comprado na China – e que “não conseguiria viver sem elas” – estavam todas na bagagem desaparecida. Escreveu um poema que iniciava “En este Rangon de mierda […]”

O lamento permanente de Pablo pela perda das malas estava comprometendo qualquer alegria que pudesse haver durante a estada na Birmânia e meu pai propôs uma proibição a que se falasse a palavra mala durante o restante da viagem. Foi estabelecida uma multa, em dólares, a ser paga a cada vez que a palavra fosse pronunciada.

Esse jogo continuou até que, já em outra cidade (não sei precisar qual, nem mesmo em que país) as malas chegaram e, miraculosamente, intactas. Até a devolução da bagagem, Neruda só se referia às malas como “Las inombrables”, fugindo assim de pagar a multa e criando mais um elemento de diversão entre os compadres.

Como, minha senhora? O que tem a feminista alemã a ver com as malas de meu pai e Neruda? Tenha um pouco mais de paciência que eu esclareço. Antes, quero ainda fazer referência a um episódio ao qual me referi dias atrás. Foi quando minha mãe proibiu que eu chamasse Fadul de cachorro e eu passei a tratá-lo por Bichano.

Estou habituado a um café depois das refeições. Geralmente não como sobremesa mas o café é indispensável. Creio que sou viciado em cafeína e a abstinência me provoca dores-de-cabeça terríveis. Sempre peço café nos restaurantes e me habituei, quando como em casa, a pedir um café a Dôra.

Muitas vezes, em casa, ela tem alguma coisa urgentíssima a fazer e acaba esquecendo do café. Aí eu peço, ou melhor, eu pedia. Outro dia ela me exortou a não lhe pedir mais café, pois ele sabia que eu sempre queria e que, portanto, o pedido era desnecessário.

Anteontem pouco depois do almoço, perguntou o que eu pretendia fazer pela tarde. Eu, timidamente, respondi que depois do cafezinho, pensava ir ao BHV comprar um material que estava faltando para prender um panô mexicano na sala do Rikiki. Foi o que bastou para ela dizer que eu só falara dessa forma pra lembrar a ela para fazer um cafezinho (está vendo, minha senhora, onde o cafezinho da alemã lá de cima se encaixa?). E que, de agora em diante, eu estava proibido de falar de cafezinho nesta casa (olhe aí, minha senhora, a proibição de pronunciar uma palavra, igualzinho ao que aconteceu com Neruda no episódio das malas).

Só resta, agora, achar um substituto para cafezinho, como achei o de Bichano para substituir cachorro, ou como Pablo que usou inombrables no lugar de malas. A senhora tem alguma sugestão?

Por falar em bichano, aí vão as últimas notícias do gato. Continua sem ser visto no varandão, e já completa uma semana que a coral está lá. Hoje, contudo, ela garante que avistou um cocozinho novo. Será?

Ao terminar de escrever, passei esses escritos para Dôra fazer as correções: “anteontem é uma palavra só… trata-se não tem acento, o artigo não transforma a palavra em proparoxítona…” e outros errinhos. Para isso tive que interromper o trabalho que ela fazia, adaptando o panô mexicano ao espaço a ele destinado.

Quando terminou de ler, fez questão que eu visse o tal cocô que ele havia descoberto no varandão. Fui ver e, de fato, havia um pelote com todas as características de cocô recente. Com isso, minhas esperanças subiram no telhado.

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