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Jorge Amado & Zélia Gattai

Mais 1 de 2 Imprimir tudo Nova janela Crônica de Domingo, 9 de julho de 2017 – (por Paloma Amado)

Piña Colada, pneumonia e minha primeira ida aos EUA

Papai e mamãe convidaram a Pedro e a mim para acompanhá-los à reunião do Pen Club Internacional, que ia se realizar em Nova York. Nunca tínhamos ido aos Estados Unidos, aceitamos na mesma hora. Era janeiro, inverno brabo.

Papai, que nunca sentia frio, saiu do aeroporto todo mal agasalhado, apesar das broncas de mamãe. Nevava, ficamos do lado de fora tomando frio, enquanto esperávamos por Alfredo Machado que fora nos buscar com seu carrão.

Ao entrar no hotel, papai já tinha 40º de febre. Aí, meu Deus! Veio médico, exames, quando deu o diagnóstico, mamãe também já estava com febre. Os dois unidos na pneumonia, com prescrição de repouso radical, canja de galinha e antibióticos.

Foi uma semana de tratamento. Exatamente a semana de reuniões do Pen Club. O hotel era ótimo, margiava o Central Park, perto da 5ªAvenida, quase ao lado do Waldorf Astoria. Passamos a semana, Pedro e eu, conhecendo um pouco da Big Apple, e ficando íntimos de todas as delicatessen do entorno, onde comprávamos a Juïf Chicken Soup, a nossa boa canja de galinha!, para os pais, assim como milhos cozidos (olha aí, Auta Rosa!!), que eram almoço e jantar dos nossos doentinho. Enquanto isso, o casal Amado disputava quem estava mais doente:

— Você viu o quanto eu tossi, Jorge?

— Tossir não é nada, eu continuo com 39º.

— Mas eu tusso e estou com 38º…

— Ora, 38º quase não é mais febre…

Pense na importância de um termômetro! Pois! Passavam o dia tirando a temperatura, na competição de quem estava mais doente, e no fundo, lá no fundinho, felizes por não terem que participar das reuniões chatíssimas do Pen Club.

Guardo  boas lembranças desta viagem. Uma foi a de fazer fila na porta do cinema para assistir Ran, de Kuruasawa. Na fila, o termômetro da rua marcava -17º com wind  factor (e que wind! Até parecia com o vendaval de Salvador nestes últimos dias), e a conversa no em torno  era intelectual retarda. Dentro do cinema, quanta diferença… O povo parecia estar assistindo um FarWest daqueles antiguinhos, gritavam, torciam pelo mocinho. Acho que foi quando comecei a entender o povo americano… Tão bobinho…

Mas meus amigos Rosa e Dick Lockwood, de bobinhos nunca tiveram nada. Vieram de Boston nos encontrar e tivemos um jantar delicioso, trocando notícias das crianças (Mariana e Daniel nasceram no mesmo ano, dividiram o mesmo berço na rua Alagoinhas um dia), dos amigos. Delícia.

Outra boa lembrança foi o carinho de Glória Machado, que compensou a falta de nossos pais acamados, nos levando para assistir um musical na Broadway. Não lembro qual foi o espetáculo, na verdade não sou uma apaixonada por musicais, mas como adoro música, sempre desejo que tenha sido Cats, pois amo suas músicas de paixão. Lembro que gostei. Depois fomos comer ostras no Oyster Bar, da Central Station.

A semana acabou, o congresso do Pen Club também, e o casal Amado ficou bom, ou quase. Papai nos disse que queria fazer um cruzeiro para se restabelecer. Desta maneira, fomos para Puerto Rico pegar o navio da Cunard, onde passaríamos uma semana de papo para o ar.

Na chegada, mamãe e eu tivemos uma surpresa. Os homens nos deixaram cuidando de bagagens, que ficariam guardadas no hotel, esperando nossa volta, enquanto iam nos esperar num bar perto do porto. Nunca me identifiquei tanto com minha mãe. Como duas mulheres porretas que éramos, fizemos tudo e fomos encontrar nossos homens, moleirões, para embarcar no navio. Mamãe aceitava bem o machismo, no qual fora criada. Eu menos, mas tive fair play.

Estas coisas servem para melhorar nossa auto estima. A de mamãe nunca precisou de melhora, sempre esteve na estratosfera, mas a minha, coitadinha, muito se valeu deste episódio.

Viajar pelo Caribe foi lindo. Aprendi, no mercado de Guadalupe, que fruit de la passion, o nosso maracujá, lá se chama… maracuyá!

Foi nesta viagem que descobrimos o perfume de cravo, da Jamaica (mas que compramos em San Marteen). Papai adorou, comprou para ele e para mim. Por muitos anos conseguimos novos frascos, por alguém que ia à Jamaica, por ter descoberto que vendiam numa lojinha em Nova York. Esse perfume marcou minha vida de tal maneira, que escrevi com ele um conto. Este conto um dia virou argumento de cinema, agora espera eu ter coragem para transformar o texto em pequeno romance. Quem sabe em breve?

Meus pais se restabeleceram e nós aproveitamos um cruzeiro lindo.

De toda a viagem, o que mais gostei, foram os dias que passamos em Puerto Rico, na volta. Tudo o que papai queria era comer Assopao e tomar Piña Colada. Em San José provei os dois pela primeira vez e adorei. Lembro de um parque lindo, onde um grupo andava em pernas de pau, ensinando a meninada a se equilibrar nas andas. Aprendi muita coisa de política nesta viagem. O grupo intelectual anti-americano fazia muito pouco, pois não era tão anti-americano assim. Queriam se mostrar revolucionários, mas gostavam da proteção do Tio Sam. Quem diria…

Queria tanto poder voltar a viajar com meus pais. Era muita alegria, curtição, aprendizado. Mesmo com doença pelo meio, se tirava do ruim um lado bom, às vezes ótimo, como a juif soup, a velha e boa canja de galinha, ser fundamental na cura da pneumonia.

Bom domingo a todos ( que significa todas, todos e todes) e um beijo especial para minha amiga Silvia Gandelman, mãe judia na melhor acepção do termo, amiga e parceira sempre, que entende de canja e de amizade.unnamed (1) unnamed

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