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Jorge Amado & Zélia Gattai

Crônica de Mardi Gras, 28 de fevereiro de 2017 (por Paloma Amado)

Encontro inesperado, com diálogos politicamente incorretíssimos.
Estou saindo do banho, ainda me enxugando, quando dou de cara com minha avó Eulália. Isto mesmo: Lalu, 45 anos após sua morte. Mantém, no céu onde mora (será que ela foi para o céu? Deve ter ido… Deus é mais!), o luto fechado que assumiu depois da morte de seu irmão Firmo,
e fuma um cigarrinho prendendo a ponta com um grampo de cabelo, o que a confunde com um drogado, mas não é. É por economia mesmo, para fumar hasta la última gota.
Imaginem o susto que levei! Ela olha para minha cara, faz um ar de desgosto e diz:
— Que pinóia de cabelo é esse que tu inventou?
Eu brinco com ela.
— Ora, vó, estamos no carnaval e estou fantasiada de branca maluca saindo do banho.
— Que conversa de sotaque é essa? A fantasia é de nega maluca…
— Ah, você não tá sabendo, vó, mas agora é proibido dizer “nega maluca”…
— Proibido? E porque?
— Porque os negros foram humilhados com a escravidão e a gente …
— Eu nunca tive escravo, tu já teve algum?
— Não é isso, vó, estou falando de antes, quando havia escravidão. Agora nós temos que medir cada palavra, senão os que pensam que são raça pura podem se aborrecer muito, brigar, insultar e até mandar prender a gente.
— Tu tá falando de prender os portugueses, não é fia? Porque foram eles que tiveram escravos.
— Não vó, estou falando dos brasileiros, filhos de português, com italiano, com índio, com senegalês, com japonês, com libanês, com espanhol, com cigano, com angolano, com russo, com polonês, com tudo quanto há…
— Mas home creia… E minha mãe que foi caçada a laço na tribo dela? Alguém está pensando em botar todo o povo na cadeia pelos Pataxós também?
— Não, vó, a luta dos índios é mais antiga. E o povo pinta e borda com eles, não devolvem as terras que tomaram, já teve mais de um caso de matarem queimado… Uma vez foi um Pataxó, como você. Papai ainda estava vivo, ficou retado, botou a boca no trombone.
— Oxen… e só matam índio?
— Que nada, vó, matam é todo o mundo. Quanto mais pobre, mais matam. Sem contar dos que morrem por  bala perdida, tanta criancinha…
— Do que João e eu escapamos no tempo da pobreza, ele mulato tamanqueiro, eu índia trabalhando feito uma burra de carga …
— Não é mais bem visto chamar de mulato, vó. Outro dia ouvi uma moça, que parece inteligente como quê, dizendo que mulato é quem está querendo ser branco…
— João querendo ser branco… Ora me deixe! Ele queria era ser fazendeiro, lutou muito, levou tiro, conseguiu as terras e trabalhou como um condenado para o cacau crescer, sem mudar o jeitinho que ele tinha: gritão de coração e nariz grande. Agora, ser branco com aquele narigão… Puxou do bisavô dele, esse sim, foi escravo.
— Eu sinto muita saudade do meu avô…
— Oia, fia, eu acho que vou me embora, que as coisas por aqui estão muito arrevezadas e está me dando uma gastura…
— Antes de ir embora, vó, me diga o que você veio fazer aqui?
— Foi seu pai que pediu para eu vir. Está preocupado com você, a filhinha querida que anda tristinha. Era meu dia de vir à terra, ele aproveitou…
— E ele sabe de mim, vó?
— E como não havera de saber? Vive acompanhando seus passos mais os de João Jorge… Disse que João Jorge está em Paris com a mulher… Gostei desta nova sujeitcha que veio pra fazer meu neto feliz!
— Me conte como é por lá, minha avó.
— Tá doidia moleca… É proibido! Mas é mais simples que essa mesera que tu tá contando. Lá todo mundo é alma, sem cor de olho nem de pele, sem cabelo… tudo igual. Como deveria ser aqui: tudo humano, homem, mulher, menino… E tira essa coisa do cabelo, que está horrível.
— Pronto.
— Melhorou um tiquinho. Tem um cigarrinho aí, fia?
— Ah, vó, eu estou que nem o russo daquela piada, lembra? O que dava, na hora, a vida pelo Partido Comunista, pois já não fumava, não bebia, nem trepava…
— Que russo? Seu Oleg?
— Não, vó… Nem me lembrava mais de Oleg Ignatiev… Que memória você tem! Queria dizer que não fumo mais, não bebo mais, há dois anos não sei o que é beijo na boca… Por isso não tenho cigarros em casa.
— Que pinóia! Queria tanto fumar mais um… Jorge continua com essa mania de não querer que eu fume. Eu digo a ele que já morri, mas qual…
— Se tivesse dava, sempre achei uma bobagem essa proibição. Afinal, faz parte do seu patrimônio cultural indígena pitar um fuminho…
— Vomimbora, essa sua conversa de sotaque tá é esquisita. Vou falar com Tonho, pedir por você…
— E você se encontra com Santo Antônio, vó?
— Falo com Tonho pessoalmente todos os dias!… Vixe, não podia contar isso…
— Pode deixar que não conto para ninguém. Se contasse, ninguém ía acreditar mesmo…
— Ah, Zélia mandou beijos.
— Eu também mando, vó, para os dois e para todos os amigos e parentes que você encontrar. Obrigada pela visita. Olha, mais uma coisa, eu não estava fantasiada de nada não, só prendi o cabelo para cima para não molhar no banho.
A toalha caiu, baixei para pegar, quando olhei em frente, ela já não estava mais. Deu uma vontadezinha de chorar, mas segurei. Felipe estava para chegar, íamos assistir juntos à reprise do desfile de ontem.
Então Felipe entrou e encheu a casa de vida. A avó agora era eu.
Bom domingo a todos.
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