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Jorge Amado & Zélia Gattai

Crônica de Domingo, 7 de maio de 2017 – por Paloma Amado

O quase embaixador e seus amigos do Marais

Por duas vezes papai foi convidado para ser embaixador do Brasil.

No início dos anos 60, Jânio Quadros convocou o escritor Jorge Amado a assumir a Embaixada do Brasil no Egito. Dentro de sua política externa terceiro-mundista, o Egito tinha papel importante e o Presidente via papai como a pessoa certa para o cargo.
A agitação comia solta no apartamento da Rodolfo Dantas, o telefone não parava de tocar, alguns amigos e tio James entravam e saíam mais do que o normal. Portella seria seu secretário e passou a chamar mamãe de Embaixatriz. Assim a chamou até o fim da vida.
Eu não entendia nada, mas a novidade e a perspectiva de mudança me encantavam. Olhei uma foto do Presidente Nasser, que circulava pela casa: a cara de papai! Parecia até irmão. Vai ser ótimo, pensei.
Tudo passou rápido. Papai foi à Brasília dizer ao Presidente que poderia ajudar melhor se fosse uma espécie de embaixador itinerante, circulando pelos países de terceiro mundo. Assim ficou combinado, só que não deu tempo, Jânio renunciou. Na época, fiquei aliviada com o fim deste plano. Sabia o quanto o cargo itinerante aumentaria o número de viagens de meus pais, e eu ficaria sem eles mais do que já era o habitual. Para o Egíto, eu queria ir, com mãe, pai, irmão, o Príncipe e, quem sabe, tio James com tia Lu, Fernanda e Janaína também… Na minha imaginação de menina, cabia quase toda a família.

O segundo convite foi para a Embaixada em Paris, no governo do Presidente Sarney. A pressão para que papai aceitasse foi grande, todos nós (eu e João, já casados e pais de filhos) acreditávamos que seria muito bom para o Brasil e para ele. Desta vez não foi preciso pensar muito, declinou do convite, se pôs à disposição para tudo o que pudesse fazer. Na verdade, fez muito. Não só com a França, já que Mitterand era seu amigo pessoal, também trabalhou no reatamento de relações com Cuba, e participou da aproximação do Brasil com a China.

Um dia, depois dele ter dado sua resposta ao Presidente, fui a Paris. Fiquei com eles no apartamento da rue Saint Paul no Marais. Depois do almoço, de bolsa de compras em punho, ele me chamou para sairmos pelo bairro. Paramos na frutaria de seu Romeo, um italiano muito simpático e atento às suas maravilhosas frutas. O único com permissão a apalpar e cheirar morangos, cerejas, pêras e melões era papai. Batemos um papo, falamos da Itália, compramos uma porção de coisas que ficaram lá mesmo, para buscarmos na volta. De lá fomos para a rue Saint Antoine, onde ficava o jornaleiro. Além de comprar o Le Monde, papai teve longa conversa com o o senhor dos jornais. Eram íntimos! A conversa preferida era falar mal de suas respectivas mulheres, sendo que mamãe não estava lá, mas a mulher dele sim. Ela se limitava a dizer, com cara de poucos amigos: Ordure!, que quer dizer: Lixo! Rimos
muito, inclusive mamãe a quem papai contou a conversa de sotaque daquela tarde. Na mesma Sait Antoine estava a livraria Epigramme, pertencente a uma família que ficara nossa amiga íntima. Gerard, que era o pai, não estava, tinham aberto outra livraria perto da Bastille e ele tinha passado a gerencia desta para sua filha Laurence. Conversa das mais simpáticas, recomendou livros ótimos, que eu comprei e li ainda na temporada parisience. Voltando da Epigrame, no rumo de casa, passamos em Dona Teresa, que era uma delicatessem italiana. Dona Teresa não era o nome da dona da loja, que também não tinha esse nome. Papai me explicou que dona Teresa era uma italiana de uma loja do tipo desta em Londres, de quem ficara grande amigo em suas temporadas londrinas (foi lá que escreveu Tieta, num apartamento alugado). Com muzzarelas, presuntos de parma e um torrone para mamãe, voltamos para casa, passando em seu Romeo para recolher as frutas.
Ao chegar no prédio, antes que subíssemos ao apartamente, papai me disse:
— Gostou do passeio?
— Gostei muito, que gente mais simpática.
— Veja, minha filha, vivo parte do ano em Paris, com todos esses amigos, levando a vida que quero levar, e por minha conta própria. Imagina se eu estivesse na embaixada? Teria que levantar de madrugada para ir buscar o ministro da economia, logo eu que não entendo nada disso. Sair de chinelo?? Nunca! Sair para comprar frutas, jogar conversa fora com o jornaleiro… Nunca mais, não é? Como aceitar o convite tão honroso? Eu não poderia nunca mais convidar Calá e Auta Rosa para passearmos juntos pela Europa, se hora para voltar…
É claro que entendi perfeitamente e, na verdade, fiquei no maior orgulho de meu pai! Não é para qualquer um recusar ser embaixador em Paris.

Não escrevo mais porque estou com muita febre. A gripe me pegou feio. Ainda bem que já tinha começado esta crônica na quinta, agora, entre uma tosse e outra, foi só o arremate.

Bom domingo a todos. Boa eleição a todos os franceses, votando Macron,é claro. Ter Trump e Le Pen ao mesmo tempo, é dose para elefante para esse nosso mundo tão conturbado.

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