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Jorge Amado & Zélia Gattai

Crônica de domingo, 28 de agosto de 2016: Iroko (por Paloma Amado)

Vim para falar de magia, dos milagres que acontecem na Cidade da Bahia de Todos os Santos.
No livro Tenda dos Milagres, em determinado momento, Pedro Archanjo é questionado sobre como, se dizendo ateu, frequenta e tem posto em candomblé.A resposta é a mesma que Jorge Amado, meu pai, deu a todos que lhe fizeram esta pergunta:
O meu materialismo não me limita.
Um dia, Caetano escreveu para Archanjo:
Quem é ateu e viu milagres como eu
Sabe que os deuses sem Deus
Não cessam de brotar, nem cansam de esperar
E o coração que é soberano e que é senhor
Não cabe na escravidão, não cabe no seu não
Não cabe em si de tanto sim
É pura dança e sexo e glória, e paira para além da história
Impossível viver na Cidade da Bahia e não presenciar milagres quase que diariamente. Papai sempre dizia para não procurarmos explicações. Magia não se explica, se aceita.
Vivi ao lado de meus pais alguns episódios marcantes. O primeiro foi ver “aleijado andar “, e não era coisa de templo evangélico. Foi assim:
Mãe Viturina, baiana de acarajé, mãe pequena de um candomblé banto, era filha de Tempo. Entre os bantos, Tempo é representado por Iroko, a árvore sagrada. Na Bahia elas são gameleiras imensas, amarradas por um pano, enorme laço dado com as pontas caídas. Vitu, como a chamávamos, era muito nossa amiga. Um dia teve um AVC, ficou hemiplégica, deixou seu tabuleiro de abarás e acarajés, retirou-se.
Os orixås exigem que seus filhos dancem para eles em seus dias de festa e chegara a hora de dançar para Tempo.. Fomos convidados a assistir. Os atabaques soaram, três filhas de santo levantaram Mãe Viturina da cadeira e a conduziram e sustentaram numa dança difícil para quem não tinha mais o movimento das pernas. De repente, Tempo chegou, entrou em sua filha e ela se libertou. Saiu rodopiando sozinha, nenhum mal superava o poder de seu orixá. Foi impressionante.
No intervalo para a troca de roupas, enquanto íamos  ao barracão para comer a comida do santo, vimos Vitu passar, quer dizer, Tempo, sem ninguém a segurar, majestosa. Veio até nós, abraçou meus pais, Nancy e eu. Depois levantou Carybé, segurando pelas pernas, e saiu rodopiando com ele pelo terreiro. Foi ainda mais impressionante.
“… Sabe que os deuses sem Deus, não cessam de brotar…”
De outra vez presenciei a resolução de um problema sério em que papai foi elemento fundamental, sem ter a menor noção do que estava fazendo. Eu conto para vocês.
A senhora era paulista, costureira, pobre e desesperada. Uma católica que, como tantos no desespero, se voltava ao que lhe apresentavam. Foi com uma amiga a um terreiro de umbanda. Uma Pomba Gira baixou e mandou que viesse à Bahia onde um intelectual, o mais importante, lhe daria um anel africano capaz de mudar sua vida. Entregou um desenho detalhado da jóia vinda do outro lado do oceano.
Ela não acreditou muito, mas como não tinha mais nada em que acreditar, vendeu o que restava, comprou passagem de ônibus, reservou uma pensão, e na companhia da amiga veio pata Salvador. Levou um tempo para descobrir o que era um intelectual e qual seria o mais importante. Já estava no seu último dia, o dinheiro acabara, quando bateu em nossa porta procurando por papai. Ele não estava e ela entendeu que mais uma vez tinha sido atropelada pela vida, agora perdera tudo mesmo. Nada explicou a Beatriz Costa, nossa amiga, que a atendeu na porta, do motivo de sua visita.
De volta à pensão, desiludida, infeliz, foi convencida por outros hóspedes a ir a uma festa no Axé do Opô Afonjá, que se realizaria naquela noite.. É bonita, não se deve perder por nada. Ela foi. Ao chegar, a primeira pessoa à vista era papai. Alguém disse:
— Você não está procurando o Jorge Amado? É aquele ali.
Ela partiu célere, chegou perto, não explicou nada, apenas perguntou:
— Cadê meu anel africano?
Papai pensou que era mais uma daquelas malucas que se aproximam, mas não pediu explicações. Vendo Camafeu de Oxóssi que passava, o apontou e disse:
— Seu anel está com Camafeu, fale com ele.
Camafeu tinha uma barraca de material de candomblé e recebia muita coisa da África. Nunca entendi porque papai falou daquela maneira, mas… Falou.
Ela partiu para Camafeu, pediu o anel, mostrou o desenho. Estava com ele! Acabara de receber uma partida de anéis africanos, vendeu todos, mas guardou o que mais gostara, igualzinho ao do desenho. Excelente pessoa que era, Camafeu o deu à senhora quando ela passou pelo Mercado Modelo no dia seguinte, antes de ir para a rodoviária.
Nunca mais soube dela, mas não tenho dúvidas de que o anel mudou sua vida
” E o coração que é soberano e é senhor, não cabe no seu não…”
No dia 10 de agosto de 2001, enterramos as cinzas de papai sob a mangueira do jardim. Aquela que produzia as mais deliciosas manguitas, que colhíamos enchendo cestos e chupávamos ali mesmo, à sua sombra. Passados uns dias, mamãe nos chamou para ver uma coisa: uma gameleira havia brotado na parede do  seu escritório, pelo lado de fora.
É Iroko chegando, pensamos todos. Papai não quer distância de sua casa, muito menos de sua mulher bem amada.
Falando de Mãe Viturina, citei Iroko, o Tempo. Ouvi de Mãe Lúcia, neta de Mãe Mirinha do Portão, que , ao contrário dos demais candomblés, que cultuam a ancestralidade, os de origem Banto privilegiam a natureza, fonte de vida, árvores, bichos e seres humanos .
Se for procurar por Iroko, há de encontrar que é um orixá raro, do mato, que veste verde como Ossain,  que vinha no corpo e na dança de Mãe Olga do Alaketu, em dança de maravilhar.
Quem já viu em nossa cidade uma linda e grande gameleira amarrada com um pano, laço dado, pontas caindo, viu Iroko.
E lá estava a gameleira crescendo velozmente, as folhas subindo, as raízes baixando, a parede rachando . Logo vimos que para manter a casa em pé era preciso remover a árvore. Assim fizemos, seguindo as orientações e ritos do pessoal do Gantois, transplantamos para o jardim, perto da mangueira.  Iroko zangou-se, foi embora rápido, a gameleira morreu. Mamãe entristeceu, nós também.
Em 2008 foram as cinzas de dona Zélia encontrar com as de seu Jorge embaixo da mangueira de manguitas. Alguém, entendido em botânica, me disse que não era uma boa jogar cinzas humanas na terra plantada, alguma coisa a ver com muito cálcio fazer mal às plantas, ao invés de adubá-las. A mangueira continuou bem por mais alguns anos até que, no início deste, ela perdeu seus galhos e morreu.
Quanta tristeza ver o tronco despido de galhos e folhas, do cheiro e do gosto das manguitas. Mas o que não tem remédio… Ao menos o tronco ficou marcando o lugar do casal de namorados.
No início da semana, Juca, meu mano, chegou com a grande novidade: Milagre no Bairro do Rio Vermelho! No alto do tronco da mangueira de manguitas brotou viçosa gameleira.
Arrepiei! Imediatamente vi, na minha imaginação, os Oxóssis Jorge, Carybé e Camafeu, com o Xangô Caymmi, os quatro Obás de Xangô, chegando, em companhia das mais belas Oxuns: Zélia e Myrian Fraga, de braços dados com Vitu, Mãe Senhora e Mãe Menininha. Vinham para se instalar, com Tempo, na Casa do Rio Vermelho. Tomaram posse, com energia de coisa viva.
“E o coração… Não cabe em si de tanto sim
É pura dança, sexo e glória, e paira para além da história”
Como disse, hoje vim falar de magia, contar que Iroko renasceu no alto da mangueira de manguitas. O milagre foi feito, daqui a pouco tomará conta do lugar e ganhará seu laço de pontas caídas.
Bom domingo a todos com muito axé e alegria.
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