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Jorge Amado & Zélia Gattai

Crônica de Domingo, 25 de junho de 2017 (por Paloma Amado)

Triste drops junino e outros dropsinhos amenos (pelo menos  um imenso!)

1. Porque não gosto de fogueira.

Eu era pequena, uns 7 anos, João 11, fomos passar as férias de inverno em Carmo do Cajuru, em Minas, onde morava minha tia Vera.  Cidade pequena e bonita, eu estava no meu ambiente: conhecia as pessoas, podia andar sozinha pelas ruas e ainda tinha o colo de minha tinha preferida, amor do meu coração. Tia Vera avisara a mamãe da festa junina da cidade, com grande fogueira no meio da praça, fogos e muita animação, e dona Zélia providenciou um vestido de caipira, que veio na minha mala.

Acompanhei a montagem da fogueira, a armação das barraquinhas da quermece, provei os doces de milho de todas as quituteiras, os de minha tia, a rainha dos quitutes, eram sem dúvida os melhores. Sonhava com o dia de vestir aquele vestido rodado, enfeitando de bandeirinhas de pano.

E o dia chegou, e lá fomos nós. João logo foi para a turma dele e eu fiquei, meio aparvalhada, vendo o fogo alto daquela fogueira que, pelo menos para mim, era enorme. Distraída do jeito que sou, custei a ouvir o menino grande, uns quinze anos, que me chamava. Quando olhei, vi que os outros me olhavam divertidos. Não maliciei. Ele me disse:

— Menina, pega aquela pedrinha vermelha ali…

Eu olhei, era perto da fogueira, a pedra brilhava muito. Fui lá e peguei a brasa com a mão. De onde estava, João ouviu meu grito e correu. Os grandões já  tinham ido embora dando risada. Juca me levou para casa, tia Vera desconsolada passava picrato de butezim (santo remédio, que eu nunca mais vi para vender) na minha palma, que era uma bolha só.

Eu que sempre fui de chorar, chorei muito. Meu tio foi tirar satisfações, descobrir os bandidos, não lembro se achou ou não, mas o que ele podia fazer além de passar um carão? Ganhei muito colinho bom, a parte gostosa da história, e tomei horror de fogueira. E tomei horror também de gente ruim.

2. A mesa de bilhar de dona Zélia

Papai tinha morrido há um ano, Juca e eu estávamos numa batalha com mamãe para que ela se mudasse da casa. Estava tudo muito triste, a nossa casa do Rio Vermelho, que sempre fora fonte de felicidade, fazia as vezes de um cemitério, com as cinzas de papai na mangueira, e ela passando as tardes sentadinha ali, conversando com ele, chorando.

Depois era o vazio. Dona Zélia, sempre tão para cima, otimista, estava, pela primeira vez na vida, deprimindo. Primeiro ela aceitou mudar, desde que fosse para um apartamento frente ao mar. Quem conhece Salvador, sabe que nossa orla foi preservada de grandes construções até pouco tempo, quando um prefeito desastroso liberou o gabarito para 20 andares. Naquele momento, frente ao mar somente na Cidade Baixa, em Peri Peri ou no Corredor da Vitória. Ir para a Ribeira ou para o subúrbio ela não queria nem pensar, o Corredor da Vitória era caro, e a idéia era que eu e João vendêssemos nossos apartamentos para comprar outros no mesmo prédio, ficaríamos todos juntos. Como que por milagre, encontramos três apartamentos num mesmo prédio da Vitória, ótimos e com preço palatável.

— Qual! Aqui não tem praia, só mar…

Mudava de mar para praia, tinha que ser cobertura para ela fazer um jardim, etecetera e tal. Encontramos, finalmente, no Horto, vista total para o mar, ao longe, cobertura linda. Estava em construção e mamãe quis ver de perto. Aos quase 86 anos, subiu pelo elevador externo da obra (como uma gaiola). Lá no 20o andar, o apartamento ainda em obras, o vento soprava forte.

— Vocês querem me matar de pneumonia?

— Mas mãe, vai ter janelas para fechar…

— Ah, querem me matar sufocada…

Sendo o diálogo impossível e querendo aliviar a pressão sobre ela, que já sofria tanto, resolvemos  fazer, nós dois, a compra dos três apartamentos. Ela só ficou sabendo quando ficou pronto. O dela não seria a cobertura, e nós o adaptamos com os elementos adequados para uma pessoa idosa, tudo muito amplo, anti-derrapante, até a Jacuzzi, que sempre foi o seu sonho de consumo, tinha. Convidamos para visitar, pois queríamos que ela escolhesse móveis e desse seus palpites. Tentando demonstrar uma zanga, que não era verdadeira (no fundo estava feliz), foi conosco. Impossível não gostar! Mas ela não era de deixar barato…

— Vocês querem que eu mude para cá, não é? Muito bem, eu mudo. Mas

tem uma condição. Só venho se tiver uma mesa de bilhar!

— Para que uma mesa de bilhar, mãe?

— Ora, para quê! O que se faz com uma mesa de bilhar? Se joga bilhar. Adoro, Jogava muito em Dobris!

— Mas mãe, quando é que…

João, vendo minha intenção de iniciar longa discussão, cortou minha palavra.

— Sem problemas, mãe! Vou providenciar sua mesa de bilhar.

Quando dona Zélia mudou, lá estava ela, com quadro na parede, tacos, giz e tudo o mais. Ela riu de perder o fôlego. Deu umas tacadas e foram as únicas. Juca, muito previdente, comprara a mesa com um tampo, que podia fechá-la. E assim  ela ficou, fechadinha, e dona Zélia contente, neste apartamento que foi seu último ninho.

3. O menino dos pés aborrecidos (Um drops com spoiler!)

Se o drops anterior foi quase uma crônica, este é só uma breve história.

Veiga Leitão, poeta português (gosto muito da sua poesia), era anti-salazarista militante. Veio para o Brasil fugindo do salazarismo, para que seu filho único não fosse fazer a tropa em África. Era amigo de meu sogro e tive a alegria de conviver com ele e sua família. Um dia, comentando sobre como se dizia palavrões no Brasil, contou que em sua casa, na infância, não se dizia nem “chato”. Já rapazinho, veio à casa uma amiga da família, que sabedora de ter ele escapado ao serviço militar, perguntou:

— Porque não o quiseram à Tropa?

— Ai, minha senhora, porque tenho os pés aborrecidos…

4. Drops da vergonha

“Mais uma vez, quero agradecer à vossa excelência e a todo o povo norueguês a gentileza e a delicadeza com que nos recebem. Embora voltando hoje ao Brasil, desde já, com a reunião que tivemos ontem com os empresários e da reunião que tivemos agora com vossa excelência e, mais adiante, com o parlamento brasileiro e, um pouco mais adiante, com sua majestade, o rei da Suécia, eu já tenho a mais firme convicção de que, embora muita rápida nossa visita, ela estreita cada vez mais os laços do Brasil com a Noruega” (Michel Temer).

Ela podia ter desejado feliz regresso a Buenos Aires, só para curtir…

5. Beijote

Papai escrevia cartas, mandava telegramas, nunca deixava de se comunicar. O fax foi a sua invenção preferida da vida (depois da escada rolante, ele dizia). Eu era meninota. Como sempre, ele viajara para cumprir as tarefas do Partido. Assim que chegou no destino (Moscou? Praga? Paris?), mandou telegrama:

“Cheguei bem beijote Jorge”

Peguei o telegrama, depois de mamãe o ler algumas vezes.

— Beijote, heim?!… Papai está assanhado! Manda beijotes…

Saí rindo, ainda tive tempo de ouvir mamãe dizer:

— Menina boba, a gente tem que economizar em palavras, no telegrama.

Seu pai escreveu: Beijo-te…

Beijote viralizou na família, virou código!

Beijotes a todos!Bom domingo !

Lá no fundo a mesa de bilhar tampada, mas se vê a rede das caçapas. Rina e Maria, numa domingueira de dona Zélia.

Lá no fundo a mesa de bilhar tampada, mas se vê a rede das caçapas. Rina e Maria, numa domingueira de dona Zélia.

Uma fotinho das três irmãs, Zélia, Vera e Wanda, com Déa, a primeira da nova geração (filha de Wanda) a nascer.

Uma fotinho das três irmãs, Zélia, Vera e Wanda, com Déa, a primeira da nova geração (filha de Wanda) a nascer.

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